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"Com o 11 de Setembro, a Informação da Internet
Chegou à Maioridade" Segunda-feira, 12 de Maio de 2003
Entrevista com Ramón
Salaverría
Os atentados de 11 de Setembro foram um marco também em
matéria de comunicação. A resposta informativa da Internet mostrou
fraquezas e potencialidades e permitiu avanços posteriores, cujo
exemplo mais notório é o "weblog". É o que pensa Ramón Salaverría,
investigador da Universidade de Navarra. Por João Manuel Rocha
Passou a tarde de 11 de Setembro de 2001 a "capturar" páginas na
Internet. Para Ramón Salaverría foi desde logo "bastante evidente"
que se estava em presença de um momento importante para o mundo,
para os meios de comunicação e para a Internet, uma das suas
principais áreas de investigação. Director do Laboratório de
Comunicação Multimédia da Universidade de Navarra, membro da equipa
que está a estudar o impacto da Internet nos "mass media" da Europa,
esteve na semana passada em Lisboa para falar no ISCTE (Instituto
Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa). E disse ao PÚBLICO
com os atentados de Nova Iorque e Washington, a informação da
Internet "chegou à maioridade" PÚBLICO - Porque é que
fala num pós-11 Setembro na Internet?
RAMÓN SALAVERRÍA - Depois do 11 Setembro, a Internet configura-se
como um verdadeiro meio de comunicação, tanto para o público como
para os jornalistas. Os jornalistas reconhecem a Internet como um
meio com o qual há que contar. Em segundo lugar há uma série de
meios da Internet que adquirem uma credibilidade superior. Em
terceiro lugar, dá-se a emergência de uma série de fenómenos de
informação globalizada.
P - Chega à maioridade?
R - Exacto. A partir de então podemos dizer que é um meio que tem
uma competência como qualquer outro. Não tem ainda a maturidade dos
outros, como é natural. Mas, depois de um período de nascimento e
desenvolvimento, nos anos 90, é o momento da autonomização
P - O 11 de Setembro foi o primeiro acontecimento de repercussão
global desde a emergência da Internet. Seria inevitável que tivesse
tanto eco.
R - Sim. O precedente mais parecido encontra-se na guerra do
Golfo, em 1991. Não existia a Web, mas foi o primeiro exercício de
informação globalizada. Havia possibilidade de emitir por satélite e
essa informação teve alcance global. Dez anos depois, ocorre o
mesmo, agora com uma nova plataforma tecnológica, que é a Internet,
e com uma série de fenómenos específicos da rede.
O tipo de impacto de comunicativo do 11 de Setembro é também um
claro exemplo do modelo de sociedade globalizada em que vivemos. Em
segundos uma informação alcança um âmbito mundial Nota-se também a
presença da Internet como um meio de comunicação pleno.
P - Mas o caso Clinton-Lewinsky não tinha já sido um momento de
maioridade da Net?
R - Sim, mas esse caso teve alcance sobretudo nacional, nos
Estados Unidos. Quantas pessoas acederam ao "sítio" de Matt Drudge
para encontrar a informação do caso Lewinsky? Isso ocorreu
especificamente nos EUA. O que aconteceu foi que a informação se
deslocou da Internet para os meios convencionais. No 11 de Setembro
há já mecânicas, fenómenos de comunicação, que fazem da Internet um
meio onde já circula a informação. A partir daí, e foi evidente
nesta guerra com o Iraque, deu-se a emergência de meios de
comunicação unipessoais, os "weblogs" [diários de navegação na
Internet], nos quais se acentua o processo de desintermediação, ou
democratização da informação, que se havia iniciado com o 11 de
Setembro.
P - O 11 de Setembro tornou evidentes, em seu entender, pontos
fracos e fortes da Internet? Quais são?
R - Os pontos fracos são as carências tecnológicas, porque os
meios da Internet não estavam preparados para responder a tanta
procura. Por outro lado, também se notou uma certa imaturidade
editorial, porque os jornalistas com cargos não tinham grande
experiência. São jovens e isso teve reflexos, foram cometidos erros.
Notou-se também uma falta de identidade: os meios da Internet não
sabiam exactamente qual era o papel que tinham que desempenhar, se
tinham que explicar o que estava a ocorrer ou se tinham de
converter-se em meios que ofereciam informação de última hora, em
tempo real.
Quanto aos pontos fortes: em primeiro lugar, o público, como os
próprios jornalistas, passam a reconhecer a Internet como meio de
comunicação social pleno. Em segundo lugar, é o momento chave para o
[posterior] desenvolvimento das sinergias multimédia. A Internet
passa a fazer parte do jogo entre os diferentes meios. Em terceiro,
dá-se a emergência de novos formatos linguísticos, próprios da rede.
Quer dizer: aproveitamento de potencialidades multimédia e
interactivas. A partir do 11 de Setembro aparecem novos formatos
linguísticos que não existiam, que são específicos da rede e
plenamente jornalísticos.
P - Na guerra contra o Iraque a TV teve um papel relevante e
surgiram os "jornalistas incorporados". Isso não relegou a Internet
para um plano secundário, diferente?
R - Eu diria complementar. É evidente que a TV é um meio de
comunicação de massas. No entanto, no caso da guerra do Iraque, os
jornalistas para se informarem e encontrarem informação acediam
prioritariamente à Internet. A Internet era para os jornalistas
fornecedora de informação. Por outro lado, propiciou o aparecimento
de vozes paralelas à voz única que explicava a guerra de uma única
maneira. É também uma diferença face à guerra de 1991, em que só
havia uma versão, a que o governo dos Estados Unidos queria dar.
Agora existe a possibilidade, e concretizou-se, de oferecer
diferentes versões da informação, graças, em grande medida, à
Internet.
P - Afirma que a Internet influencia bastante o trabalho dos
jornalistas. Como? E em que áreas é que essa influência é mais
evidente?
R - O debate dos últimos anos sobre as diferenças entre um
jornalista e um jornalista digital é irrelevante. Dentro de anos,
não sei quantos, todos vão ser digitais. Esse vai ser o seu meio de
trabalho. Neste período de transição, os jornalistas utilizam
principalmente a rede em algumas áreas temáticas. As áreas de Local
e informação Política são, provavelmente, as que utilizam menos a
rede como fonte. Mas, por exemplo, o jornalismo internacional, o
jornalismo especializado, o Desporto, particularmente em Espanha,
recorrem muito à Net para encontrar informação em publicações
estrangeiras.
P - Há vozes que defendem a necessidade de controlar conteúdos de
tipo pornográfico, ou pedófilo. É possível separar o controlo do
acesso a esse tipo de conteúdos de outros tipo de controlo?
R - Uma das coisas de que os governos se deram conta com o 11 de
Setembro é que a Internet é uma plataforma de comunicação em que
circulam conteúdos que podem ser prejudiciais de um ponto de vista
moral e outros perigosos de um ponto de vista terrorista. Isto
produziu uma nova corrente de pensamento por parte dos governos, que
procuram controlar cada vez mais os conteúdos. Em Espanha, há uma
lei que obriga todas as publicações que oferecem informação através
da Internet a registar-se, todos os servidores a conservarem as
páginas visitadas por todos os seus assinantes para que, no caso de
actuação ilícita, se saiba que páginas visitaram. Por muita gente
isto foi visto como uma invasão da privacidade. Mas a pergunta está
bem feita: até que ponto se pode separar o controlo do conteúdo que
alguém vê da prevenção de outros conteúdos objectivamente ilícitos e
perniciosos? Isso não está claro e tecnologicamente não está
solucionado.
P - Está resolvida a querela de saber se a Internet é um novo
"media", um quarto "media", ou um "media" de diferentes "media"?
R - Há uma analogia possível. A Internet é um meio que leva
meios. É como se fosse uma autoestrada em que circulam outros meios
que existiam antes. Neste sentido, é um meio integrador, uma
plataforma tecnológica que permite integrar meios pré-existentes e
meios específicos da rede. No futuro, está destinada a converter-se
na coluna vertebral das empresas de comunicação, porque a Internet,
as redes digitais, são as únicas plataformas tecnológicas que
permitem integrar todos os suportes e conteúdos que se oferecem
através dos meios anteriores. Ela própria é um meio em si, porque
está a configurar, pouco a pouco, a sua própria linguagem.
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